quinta-feira, 28 de março de 2019

Museu da Farmácia... Uma visita guiada


Uma visita guiada pelo Museu da Farmácia, em Lisboa, leva-nos numa viagem por mais de 5000 anos de história da saúde e da farmácia, através de objetos oriundos de civilizações e culturas distantes no tempo e no espaço.
Iniciamos esta viagem no Antigo Egipto perante o sarcófago de Irtierut, o filho de Pa-di- Her e Taremenubet.  Todo o ritual e processo de mumificação possibilitou um maior conhecimento sobre a anatomia e fisiologia do corpo humano, assim como o conhecimento das substâncias terapêuticas provenientes do reino vegetal, animal e mineral, que eram usadas na preparação e conservação do corpo.
Passando para a Grécia Antiga ficamos a saber que a grande conquista da medicina grega foi a sua procura de bases naturais para explicar a doença, as suas causas e tratamento, não sendo baseadas na religião, na magia ou superstição. Estando esta conquista ligada a Hipócrates (460-377 a. C.), que ficou conhecido como pai da medicina. Ele e os seus seguidores formaram a chamada escola Hipocrática, que fomentava uma explicação racional e empírica, opondo-se à abordagem religiosa e mágica da medicina.
No Império romano, o contributo caracterizou-se pela organização do conhecimento médico e farmacêutico através de várias obras e Galeno foi o mais notável autor da sua época.
Viajando para outro continente, chegamos às civilizações da América do Sul: Incas, Maias e Aztecas. O poder da cura, nestas civilizações estava estritamente ligado às figuras do feiticeiro e curandeiro, que faziam a mediação entre o mundo terreno e o espiritual, com os rituais e cerimónias a assumirem grande importância. Para além da ligação mágico-religiosa, estas civilizações tinham um grande conhecimento das propriedades e manipulação das plantas e outras substâncias naturais.
Avançamos, agora, alguns séculos no tempo e chegamos à Europa na Idade Média. É nesta época que se dá o aparecimento dos primeiros espaços fixos para a produção e venda de medicamentos, as boticas. Surgem sobretudo no centro das grandes cidades europeias, mas também se organizaram boticas em conventos e mosteiros, que muito contribuíram para o desenvolvimento da prática farmacêutica.
A expansão marítima portuguesa, iniciada no século XV, teve uma grande repercussão no desenvolvimento da ciência farmacêutica, com a descoberta de novas espécies vegetais, minerais e animais e com o contacto com outras civilizações, que proporcionaram a vinda, para a Europa, de drogas desconhecidas de grande interesse terapêutico e comercial.
Uma farmácia portátil
Nos séculos XVII e XVIII, deu-se o aparecimento da farmácia química. No início de seiscentos alguns medicamentos químicos já eram utilizados em Portugal, mas a sua utilização só foi aceite de forma mais pacífica em finais do século. Esta aceitação refletiu-se no aparecimento de literatura farmacêutica, até então praticamente inexistente. Nos finais do século XVII, também se assistiu a uma grande expansão do número de entradas na profissão farmacêutica. A aprendizagem dos saberes farmacêuticos era realizada nas boticas e depois de quatro ou mais anos de prática poderiam realizar o exame de acesso à profissão.
Foi finalmente no século XIX, que houve um maior desenvolvimento da farmácia em Portugal com criação e consolidação do ensino superior e com o fortalecimento do associativismo entre a profissão.
No século XX, as grandes descobertas na área da medicina tiveram um avanço sem precedentes. Exemplo disso foi descoberta da penicilina por Fleming, uma verdadeira revolução para a Humanidade.
A evolução das farmácias durante os vários séculos pode ser observada através de exemplos de estabelecimentos farmacêuticos recriados no espaço do Museu, desde o final do século XV até aos nossos dias. Reconstituições de autênticas farmácias portuguesas desde a antiga botica dos séculos XVIII, até à Farmácia Liberal do início do século XX. É de destacar a reconstituição de uma farmácia tradicional chinesa, oriunda de Macau do final do século XIX e de uma área dedicada à Farmácia Militar.
É sem dúvida um museu que não podem deixar de visitar!





Fotos: Ana Filipa Simões

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

História da Farmácia | Os “remédios de segredo”


Nos séculos XVII e XVIII, deu-se o aparecimento da farmácia química em Portugal. Químicos e destiladores estrangeiros que se estabeleceram no país, trouxeram consigo a produção de medicamentos preparados por arte química. No início de seiscentos alguns destes medicamentos já eram utilizados, mas houve alguma resistência à difusão destas técnicas, pois ainda havia uma predominância das doutrinas da farmácia galénica, baseada numa terapêutica de origem natural e em métodos tradicionais como purgas ou sangrias.
Foi só na primeira metade do século XVIII, que os medicamentos químicos se tornaram mais populares na forma de remédios secretos, tendo bastante aceitação por parte da população. Eram feitos principalmente por químicos, médicos, cirurgiões e até alguns boticários. Porém, os boticários que se dedicavam à sua produção eram uma minoria, pois a maior parte das boticas não tinha instalações e equipamentos necessários para a manipulação química, e continuavam a utilizar sobretudo as técnicas tradicionais.
Com o desenvolvimento da química farmacêutica começaram a comercializar-se cada vez mais substâncias químicas e até preparados galénicos. A "Teriaga Magna", a "Água da Rainha da Hungria", o "Óleo de Ouro", as "Pedras Cordiais" e o "Xarope Violado Roxo" são alguns nomes pelos quais ficaram conhecidos esses preparados.
A “Água de Inglaterra foi um dos remédios de segredo mais populares durante o século XVIII. Eram conhecidos por este nome vários preparados farmacêuticos, produzidos por diferentes fabricantes desde finais do século XVII até inícios do século XIX, que apresentam em comum serem vinhos de quina. Eram utilizados para o tratamento do paludismo, doença com bastante incidência em todo o território português, e começaram por ser importados de Inglaterra. Mais tarde, Castro Sarmento conseguiu organizar uma rede de distribuição da “Água de Inglaterra em Portugal e com o tempo, foram surgindo produtores locais que satisfaziam o aumento da sua procura.
Foi neste contexto de expansão dos rémedios de segredo que surgiu a publicidade a medicamentos. Pela primeira vez eram publicitados remédios considerados milagrosos que prometiam curar diferentes maleitas. Os anúncios eram publicados no periódico Gazeta de Lisboa e em cartazes impressos e fixados nas ruas. Eram medicamentos que se destinavam sobretudo ao consumo por auto-medicação.
Com a difusão das ideias iluministas, no reinado de D. José I e governo do Marquês de Pombal, assistiu-se à rejeição da prática da farmácia galénica e à condenação da produção de medicamentos de segredo.
Um grande desenvolvimento neste sentido foi a criação do curso de boticário na reforma Pombalina da Universidade de Coimbra de 1772. Era um curso integrado na Faculdade de Medicina, com a duração de quatro anos, com dois anos de aprendizagem de química no Laboratório Químico e dois anos de aprendizagem de arte farmacêutica no Dispensatório Farmacêutico.


Anúncio a um remédio secreto na Gazeta de Lisboa de 9 de junho de 1718
Consultada na Hemeroteca Digital



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Uma breve história da farmácia em Portugal (séculos XIII – XIX)

Indissociável da história da medicina, a história da farmácia tem vários milénios, que remonta à origem da humanidade.
Em território português, certamente que a presença de vários povos, sobretudo dos árabes, deixou um vasto legado de conhecimentos na área da saúde, produção de drogas medicinais e comércio de especiarias, que terá chegado até à Idade Média.
Na Idade medieval, a utilização de especiarias, para fins terapêuticos era bastante comum, fazendo parte da composição de vários medicamentos e os boticários eram os especialistas na sua produção. Os primeiros boticários em Portugal terão surgido no século XIII, mas antes já existiam os denominados especieiros, vendedores ambulantes de especiarias e drogas medicinais. Boticários e especieiros coexistiram ainda durante um período incerto de tempo, mas a evolução da denominação terá a ver com o aparecimento de um estabelecimento fixo para a venda de medicamentos, a botica.
Botica do Real Convento de Tomar
A existência de mulheres boticárias foi uma particularidade portuguesa e um fenómeno singular na Península Ibérica. A primeira referência a uma boticária data de 1326, e mais tarde, nos séculos XV e XVI surgem outras referências de mulheres boticárias ao serviço de senhoras da alta nobreza. Também existiam boticas em conventos e mosteiros, que muito contribuíram para o desenvolvimento da prática farmacêutica, pois não se limitavam a fornecer somente as próprias ordens, vendendo medicamentos também ao público.
Em 1338, o rei D. Afonso IV promulgou um documento onde encontramos a primeira referência à profissão,  um diploma que obrigou todos os médicos, cirurgiões e boticários da cidade de Lisboa, a serem examinados pelos médicos do rei. Em 1449, D. Afonso V concedeu uma carta de privilégios aos boticários e em 1461, regulamentou a separação entre as profissões médica e farmacêutica. Este diploma instituiu que a venda de medicamentos seria exclusiva dos boticários. A única exceção foi concedida aos teriagueiros, caso fossem portadores de uma certidão médica atestando a boa qualidade da teriaga, um antigo antídoto para envenenamentos.
Regimento do Físico-mor do Reino (1521)
A expansão marítima portuguesa, iniciada no século XV, teve uma grande repercussão no desenvolvimento da ciência farmacêutica, com a descoberta de novas espécies vegetais, minerais e animais, que proporcionaram a vinda, para a Europa, de drogas desconhecidas de grande interesse terapêutico e comercial.
Foi durante o reinado de D. Manuel I, que se realizou uma grande reorganização da prática sanitária e farmacêutica em Portugal através do Regimento do Físico-mor do reino de 1521. Este diploma determinou a obrigatoriedade de um exame feito pelo físico-mor para todos aqueles que pretendessem exercer a profissão de boticário. Viria a ser o documento legal que regulamentava toda a atividade da  profissão farmacêutica até 1836. Todas questões relacionadas ao exercício da profissão farmacêutica eram reguladas pelo físico-mor do reino, desde o estabelecimento de preços dos medicamentos às inspeções feitas nas boticas. Para este cargo era escolhido, pelo rei, um dos médicos da sua casa.
A aprendizagem dos saberes farmacêuticos era realizada nas boticas e depois de quatro ou mais anos de prática poderiam realizar o exame de acesso à profissão. O nível técnico da produção de medicamentos não exigia uma formação em instituições de ensino próprias e a aprendizagem com um profissional estabelecido, o mestre, era a que correspondia a um ofício mecânico.
Os boticários portugueses dos séculos XVI a XVIII apresentam uma grande divisão entre cristãos-novos e cristãos-velhos. Muitos médicos e boticários eram descendentes dos judeus convertidos em cristãos-novos no reinado de D. Manuel I, sendo alvos preferenciais da intolerância religiosa. Este ódio aos cristãos-novos, era alimentado pela própria Igreja, que aliado ao grande peso da religião nas crenças terapêuticas, levava a que parte da população desconfiasse da ação de medicamentos dispensados por quem eles consideravam falsos cristãos.
Nos séculos XVII e XVIII, deu-se o aparecimento da farmácia química. No início de seiscentos alguns medicamentos químicos já eram utilizados em Portugal, mas a sua utilização só foi aceite de forma mais pacífica em finais do século. Esta aceitação reflectiu-se no aparecimento de literatura farmacêutica, até então praticamente inexistente. Nos finais do século XVII, também se  assistiu a uma grande expansão do número de entradas na profissão farmacêutica.
Apesar disso, houve alguma resistência à difusão das técnicas químicas. A maior parte das boticas não tinha instalações e equipamentos necessários para a manipulação química, e também não havia investimento nesse sentido. As dificuldades da farmácia portuguesa em acompanhar as transformações técnico-científicas da época, estavam relacionadas sobretudo com as características sócio-económicas dos boticários, considerada então uma profissão de ofício mecânico.
Na primeira metade do século XVIII, os medicamentos químicos foram popularizados na forma de remédios secretos, feitos principalmente por químicos, médicos e cirurgiões e tiveram muita aceitação em Portugal. Com os remédios de segredo nasceu a publicidade a medicamentos, em anúncios publicados no periódico Gazeta de Lisboa e em cartazes impressos fixados nas ruas. Estes medicamentos destinavam-se principalmente ao consumo por auto-medicação.
Em 1772, através da reforma pombalina na Universidade de Coimbra foi instituído o Dispensatório Farmacêutico do novo Hospital Escolar, para o ensino de farmácia a boticários e estudantes de medicina, e para produção de medicamentos.
Apesar de se publicar várias farmacopeias ao longo do século XVIII, só em 1794, durante o reinado de D. Maria I, é que Portugal teve a primeira farmacopeia oficial, a Pharmacopeia Geral.
Botica (1823)
Pintura de Jean-Baptiste Debret
Foi finalmente no século XIX, que houve um maior desenvolvimento da farmácia em Portugal com criação e consolidação do ensino superior e com o fortalecimento do associativismo entre a profissão. O associativismo farmacêutico surgiu de um movimento geral contra o cargo de físico-mor, que era quem ainda dominava toda a regulamentação da atividade farmacêutica. Em 1834, foi apresentada pelos farmacêuticos uma petição e como consequência foram suspensas as funções do físico-mor. Em 1835, na botica do Hospital de S. José, foi criada a primeira associação especificamente farmacêutica, a Sociedade Farmacêutica Lusitana.
Em 1836, nasceu o ensino superior farmacêutico, com a criação das Escolas de Farmácia anexas à Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e às Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto. Mas também foi mantido o antigo acesso à profissão, através de um exame final realizado na Faculdade e nas Escolas Médico-Cirúrgicas após oito anos de prática numa farmácia, havendo assim duas categorias de farmacêuticos, de 1.ª e de 2.ª classe. Esta distinção vigoraria até 1902, ano em que se determinou por lei a obrigação de todos os candidatos a farmacêuticos, frequentarem o Curso de Farmácia.
Foi na última década do século XIX, que a indústria farmacêutica iniciou o seu desenvolvimento em Portugal. A primeira indústria farmacêutica de grande dimensão foi Companhia Portuguesa Higiene, fundada em 1891. A partir de então, assistiu-se a uma a proliferação de fabricantes de especialidades farmacêuticas.
Foi também no século XIX, que surgiu a primeira grande obra de investigação sobre história da farmácia em Portugal, da autoria de Pedro José da Silva (1834-1878), a História da Pharmacia Portugueza desde os primeiros séculos da monarchia até ao presente, uma obra de notável dimensão publicada entre 1866 e 1868.
 
Farmácia do século XIX
Museu da Farmácia de Lisboa

Bibliografia:
Museu da farmácia URL https://www.museudafarmacia.pt
A Botica do Real Convento de Thomar URL http://www.boticaconvento.ipt.pt
Pita, João Rui, História da Farmácia. Coimbra: Minerva Coimbra, 2007
Cabral, Célia e Pita, João Rui, Sinopse da História da Farmácia. Cronologia. Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, 2015

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Património | Coleções Fotográficas













Não podemos esquecer que o termo fotografia pode referir-se a objetos diversos e muito diferentes entre si. 
Uma fotografia pode ser uma prova a preto e branco, um diapositivo, um negativo em vidro, um daguerreótipo ou até um postal. No entanto, o termo nem sempre é usado de forma correta e nem sempre se refere a verdadeiras fotografias.
Nas coleções de fotografia encontramos fotografias em papel, em vidro ou em plástico, de cor negra, castanha, azul ou com várias cores em suportes transparentes, opacos, rígidos ou flexíveis, correspondendo a várias épocas e a várias necessidades da fotografia.
O que todos têm em comum é que tiveram origem na ação da luz dentro de uma câmara fotográfica. Os materiais usados, a cor, o modo como são vistos são diferentes, assim como existem diferenças nos cuidados e na proteção que requerem.
As fotografias de uma coleção são genericamente designadas por espécies fotográficas. Esta designação refere o objecto em si, a folha de papel coberta de prata ou a película com corantes e gelatina, e não apenas a uma imagem, até porque uma espécie fotográfica pode conter várias imagens. 
As transformações de deterioração que uma fotografia pode sofrer são muitas e variadas. Algumas delas são características de determinados processos fotográficos, outras são comuns em vários processos e muitas das formas de deterioração que encontramos mostram claramente a causa que lhes deu origem. A deterioração das espécies fotográficas consiste em transformações físicas e químicas ocorridas após o seu processamento, motivadas por uso excessivo ou inadequado, por condições ambientais desfavoráveis, ou decorrente da instabilidade intrínseca dos materiais componentes e que afetam a forma física e o aspecto original da espécie.
A conservação de espécies fotográficas é uma tarefa fundamental para preservar a memória visual dos últimos 150 anos. A partir de 1839 a fotografia vulgarizou-se de tal forma que tendemos a considerá-la como algo de menor valor ou facilmente substituível e reproduzível. No entanto, são relativamente recentes os esforços a nível mundial para a recolha e estudo deste tipo de documento devido ao valor histórico e documental que representam.
Com as espécies fotográficas analógicas as regras de conservação são seguras e consensuais pelo que não despertam muita polémica. Como evitar a exposição excessiva à luz, manter os depósitos em condições ambientais adequadas para a conservação, organizar e acondicionar as espécies fotográficas, protegê-las contra poeira e insectos, evitar o excesso de manipulação e expor reproduções mantendo os originais protegidos em locais escuros, são algumas das boas práticas de conservação preventiva.
Todos nós temos a experiência da fragilidade dos materiais fotográficos, com alta tendência de deterioração se não estiverem em condições adequadas e não forem seguidos os cuidados aconselhados.
Outra forma de preservação das espécies fotográficas originais é a sua reprodução digital, recomendada sobretudo para efeitos de exposição pois pode ser feita sem perda de qualidade.
Atualmente, deve-se, por isso, considerar, além da fotografia analógica tradicional, a preservação de arquivos digitais e da informação escrita que os acompanha.
A tecnologia digital pode ser uma ajuda decisiva para a preservação dos originais, não apenas para que eles sobrevivem para gerações futuras, mas também para a preservação da imagem, independentemente do suporte. De notar que o objecto original não perde seu valor intrínseco, com a reprodução digital, pelo contrário, aumenta o seu valor devido à possibilidade de uma maior difusão e divulgação proporcionadas pelas reproduções. Como referência histórica, o original continua a ser uma fonte preciosa. A prova ou negativo original contém mais informação do que seu equivalente digital. Contém o processo original da fotografia, mostra que as formas de fotografia e sua relação com os observadores foi-se alterando, desde as dimensões iniciais, as formas de deterioração, que revelam uma vida de utilização, as inscrições no verso e reverso, assinaturas, carimbos ou selos brancos que são garantias de autenticidade e da sua relação com a produção inicial. São marcas de autoria e de uma época.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Museus | A montagem de uma exposição

Loading By Monica Zanet
A concepção e organização de uma exposição científica e didática não é uma tarefa fácil, nem é uma ação que se improvisa. Não se reduz apenas a suspender objetos nas paredes da sala, a fixá-los em painéis e colocá-los no interior de vitrinas, segundo critérios arbitrários.
A concretização de uma exposição constitui uma das funções primordiais de uma instituição museológica, pois é a função que permite ao museu realizar de modo específico a sua missão cultural e educativa. Segundo George Henri Rivière “a exposição é o meio por excelência do museu, instrumento da sua linguagem particular” sendo por ele definida como “a ação de colocar à disposição de todo o público, um conjunto de bens móveis, imóveis ou imateriais, segundo um programa preciso e num local determinado, fechado ou ao ar livre, com a ajuda de diversos meios, essencialmente visuais”. 
Não existem receitas para a concepção realização de uma exposição, esta depende, essencialmente, da temática, dos seus objetivos, dos objetos selecionados e estudados, do espaço, do percurso, dos materiais de suporte e das técnicas de comunicação adotadas.
A programação de uma exposição deve ser realizada por uma equipa multidisciplinar que executa cada uma das áreas de trabalho, coordenadas por um responsável ou comissário de exposições.
A etapa preparatória consiste na elaboração do programa científico da exposição que definirá cada uma das etapas a seguir e as pessoas que hão-de intervir em cada uma delas.
Depois da definição de tema, orçamento e constituição da equipa, a primeira fase da exposição refere-se à seleção dos objetos, para posterior investigação e restauro (caso não estejam em bom estado). Procede-se depois então à criação do contexto dos objetos, escolha do espaço, mobiliário museológico e do percurso. A escolha dos seguintes aspectos é fundamental para se obterem bons resultados:

Textos e imagens...
A presença de textos numa exposição é benéfica para informar o visitante, para o orientar e identificar os objetos expostos. Os textos informativos devem ser legíveis e conter uma linguagem clara e acessível para todos os tipos de público. O seu tamanho e local devem ser acessíveis e seguir uma ordem e hierarquia consoante o programa científico da exposição. Os textos devem conter uma componente didática e servir de guia para o visitante compreender os conteúdos da exposição com o mínimo de informação necessária a uma apreensão satisfatória. No entanto este suporte deve ser de certa forma discreto e ordenado pois não devem desorganizar o espaço de contemplação dos objetos. É necessário respeitar a liberdade do visitante na compreensão dos conteúdos da exposição e não impor uma informação escrita excessiva. As fotografias e os videogramas também se consideram que possuem um grande potencial de comunicação. Podem representar uma série de aspectos, difíceis de explicar por outros meios, ajudando inclusive a evocar sensações e emoções ao visitante. Devemos ter em conta que, para que as fotografias e vídeos comunicarem a mensagem, é necessário ordená-las segundo um determinado contexto e complementá-las com um texto apropriado.

Multimédia...
A implementação ao longo do percurso de postos multimédia interativos com ecrãs tácteis, poderá constituir uma mais-valia para a interpretação.  Estas tecnologias atrativas requerem do visitante uma maior atenção e o ecrã táctil reforça este efeito, e é um dos elementos raros dentro de um museu que pode ser tocado. Constituem um suporte informativo dos objetos e dos conteúdos da exposição, mas não os substituem. A sua consulta exige uma maior disponibilidade de tempo consoante a curiosidade do visitante, sendo que são mais utilizados por gerações mais jovens do público que são mais receptivos a este tipos de comunicação. A tecnologia, em particular multimédia, apresenta grandes vantagens e oferece possibilidades excecionais à museografia e à cenografia. A sua utilização deve ser determinada segundo a concepção do programa museográfico e integrar-se completamente na cenografia da exposição, de maneira não estar desenquadrada.

Iluminação...
Outro aspecto a ter em conta será a iluminação da exposição. A luz e as formas de iluminação constituem um elemento essencial de apresentação. Pelas múltiplas possibilidades de dar ênfase aos objetos expostos, a luz é um meio de comunicação importante, contribui para oferecer um ambiente à exposição e contribui para o estilo da mesma. As principais opções em matéria de iluminação devem integrar o projeto desde a sua concepção museográfica, o seu estudo detalhado faz parte da fase de definição da cenografia. Tem que se ter em conta que a iluminação pode por em causa a integridade do objecto exposto e contribui para a sua degradação gradual. Por razões de conservação é exigido uma luz mais fraca para objetos mais sensíveis, como papel.

Cores...
 Os motivos de conservação também podem ter influência na escolha da palete de cores dominante nas vitrinas e nas paredes. Por exemplo, uma paleta escura exige uma maior taxa de iluminação, enquanto que os tons acromáticos evidenciam as cores e formas dos objetos. O conjunto de cores é um importante componente do ambiente nas galerias que deve, naturalmente, ser compatível com as exigências do programa científico da exposição. As cores não devem mudar simplesmente por razões decorativas ou por motivos de entretenimento, uma vez que qualquer alteração significativa das cores induz a sensação de que há uma mudança de tema.

Mobiliário...
O mobiliário museográfico não pode ser negligenciado nem deve estar a cargo de um técnico que não tenha conhecimento do programa científico da exposição e do museu. As vitrinas cumprem uma importante função nas exposições dos museus, sendo uma forma para a apresentação dos objetos, ao colocá-los em destaque, e para a sua conservação ao oferecer uma maior facilidade em criar um microclima. Ao mesmo tempo, serve também de proteção contra o roubo ou qualquer outro dano. Um dos maiores inconvenientes é que constituem uma barreira entre o objeto e o visitante, e portanto, dificulta a comunicação. Nas características de uma vitrina tem que se ter em conta alguns aspectos, como estarem perfeitamente desenhadas, assentar firmemente no solo a fim de evitar vibrações, permitir que o acesso aos objetos seja realizado com facilidade, oferecer um equilíbrio entre o elemento estético e funcional e devem prever locais para os reguladores de humidade relativa e para os sistemas de segurança, sendo de fácil acesso para os técnicos sem que afete o aspecto externo da vitrina. Todo o mobiliário museográfico deve ser mais ou menos uniforme e harmonioso. Para uma organização dos espaços, mobiliário e suportes museológicos é necessário elaborar uma planta do espaço expositivo, com as divisões demarcadas, todos os materiais e localização de objetos delineados.


Paralelamente à programação da exposição, tanto de caráter permanente como temporário, é importante desenvolver-se a elaboração do catálogo que constitui um elemento permanente da mesma. A maioria dos catálogos oferecem uma descrição detalhada de cada uma das peças expostas, resultado de um importante trabalho de documentação e de investigação científica, coordenado pelo comissário. Para além disso, alguns integram um estudo sobre o contexto social, histórico e cultural das obras expostas realizados pelos especialistas. Nos catálogos mais completos incluem-se alguns capítulos dedicados ao design da exposição ou aspectos museográficos concretos, assim como a ficha técnica em que consta a equipa interdisciplinar que colaborou na realização da mesma. 
A etapa final da concretização de uma exposição será proceder à sua avaliação e a realização de estudos de público. Perceber o que resultou e o que falhou. 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Museus | A documentação museológica

         Nos museus, a documentação das coleções é vital, pois o ato de colecionar retira os objetos do seu contexto e função original. Esta descontextualização exige a recolha e preservação de informação não intrínseca sobre o objecto como, de onde vem, onde foi encontrado ou o seu uso, sendo da responsabilidade da instituição que o incorpora. É necessário recolher e conservar informações precisas relativas a todas as suas coleções de qualquer natureza, sejam objetos de arte, de história, de arqueologia, etnografia, ciência, etc. Estas informações sob forma de registo, fichas, listas ou dossiers, constituem para cada serviço do museu, instrumentos documentais indispensáveis para facilitar a gestão de coleções e permitem a sua interpretação e estudo.
        No entanto, muitos museus têm coleções pouco documentadas e os objetos perdem muito da sua função com a perda de informação associada. O aumento de conhecimento e do valor da documentação só beneficia a instituição, pois a sua investigação e registo documental permite que no futuro já não se enfrente o problema da pouca ou ineficiente documentação e, isso assegura que os objetos que se colecionam serão melhor usufruídos pelas gerações futuras. Por estas razões é fundamental o inventário de todas as peças do acervo assim como a sua constante atualização. 
Segundo a Lei-Quadro dos Museus Portugueses, o inventário museológico “é relação exaustiva dos bens culturais que constituem o acervo próprio de cada museu, independentemente da modalidade de incorporação.” (Art. 16º) Pretende-se com o inventário identificar e individualizar cada objeto museológico e integrar a documentação a ele associado. 
     O inventário deve ser complementado por documentação ou seja, por registos que possibilitem aprofundar e disponibilizar informação sobre as peças que integram o museu, bem como acompanhar e historiar o processo ao qual foi sujeito dentro da instituição museológica desde a sua incorporação.
As fichas de inventário devem conter as informações base à disposição de todos os investigadores. O seu carácter polivalente lhe conferirá um grande valor de informação para os investigadores exteriores e uma utilização a longo prazo. Contudo, é necessário ter em conta que as descrições muito detalhadas tornam-se fastidiosas e acabam por comprometer o registo de inventário e conter uma informação muito fragmentada que pode dificultar a sua utilização pelo investigador.
        A elaboração de uma ficha de inventário deveria ser feita por diferentes profissionais e não apenas por um, ou seja, consoante a peça em questão deveria passar por uma equipa multidisciplinar de historiadores de arte, historiadores ou antropólogos e conservadores-restauradores, para um maior rigor da informação disponível.
       A administração das coleções nunca foi tarefa fácil, mas nas últimas décadas o trabalho parece ter-se complicado devido ao crescimento dos fundos nos museus, por serem organismos em contínua expansão e sobretudo pela procura de informação da sociedade atual. Muitos museus vêem-se confrontados com estes desafios perante coleções bastante diversificadas e com pouco historial de registo.
        A grande variedade de coleções e a grande dificuldade de os catalogar tornou árdua a procura de uma uniformização dos inventários e com o surgimento de novas tipologias de objetos museológicos a tarefa dificulta-se. Foram, sobretudo, os inventários informatizados que ocasionaram esta reflexão e reorganização das normas de inventário, pois com o desenvolvimento da informática e generalização, para além da informatização dos inventários dos museus, permitiram a sua colocação em rede e a sua acessibilidade via internet. 
        Neste contexto, as ferramentas tradicionais para a gestão e armazenamento da informação (fichas; ficheiros; índices, livros de registo) vêm-se desprezadas pelas novas tecnologias devido ao grande armazenamento da informação textual e de imagens que possibilitam as tecnologias ópticas e ao acesso à informação massiva. Contudo, esta documentação museológica deve ser preservada e, segundo a Lei-quadro dos Museus Portugueses, é considerada património arquivístico de interesse nacional pela sua importância e valor para a história dos museus e dos seus acervos.
        A documentação inerente às coleções dos museus possui, desta forma, diferentes usos. É indispensável para a própria atividade do museu, visto ser necessária para concretizar as suas funções mais básicas como a conservação, exposição e difusão ao público. Para além da disposição ao público pela exposição o museu deve também tornar acessíveis as suas colecções aos investigadores para que o museu seja realmente um centro de investigação. Não só internamente mas também tornar a documentação acessível a outros especialistas fora do museu para a própria investigação. A documentação também permite demonstrar a propriedade legal das colecções. Tem sido uma preocupação a necessidade de elaboração de instrumentos documentais como registo e inventário onde se coloque detalhadamente a forma de aquisição e a proveniência. E na luta contra o tráfico ilícito, a informação é crucial para a protecção de objectos culturais. É importante para a sua recuperação em caso de roubo que tenha sido documentado adequadamente. Estas facetas demonstram a importância que tem ganho a informação e a documentação museográfica nas últimas décadas.







quinta-feira, 9 de abril de 2015

Museus | As origens dos ecomuseus

       O conceito de ecomuseu consolida-se nos anos 70 do século XX em França com os importantes contributos de George Henri Riviére e Hugues de Varine, duas personalidades que se destacam no panorama museológico francês. No entanto, as origens da concepção que contribuíram para o surgimento dos ecomuseus remontam à segunda metade do século XIX, quando se criam museus de Arte e Tradições Populares um pouco por toda a Europa que, lançam as bases para o aparecimento dos museus ao ar livre, de maior incidência nos países escandinavos. Este crescente interesse pela cultura popular e pela sua preservação, surge como consequência da conjuntura política e socioeconómica da época: exaltação dos nacionalismos e a crescente industrialização e urbanização que incita os movimentos de êxodo rural.
Foram várias as influências que contribuíram para o aparecimento dos ecomuseus a partir dos anos 60 do século XX.
          Durante os anos 60 e 70 do século XX assiste-se a uma série de mudanças que levaram o museu a uma crise de identidade e com ela surgem novas experiências museológicas associadas à Nova Museologia. A ideia principal desta nova corrente museológica prende-se com um novo conceito de museu, entendido como um instrumento necessário ao serviço da sociedade em rápida mudança. Deste ponto de vista, tenta-se desenvolver um museu vivo, participativo que se define pelo contato direto entre o público e o património mantido no seu contexto original. Pretende-se um “museu sem paredes” com uma concepção mais extensiva de património. A este tipo de instituições atribuiu-se, então, o termo de ecomuseu pelas suas características ligadas à conservação do meio natural e social.
O nascimento dos ecomuseus está estritamente ligado às transformações da sociedade francesa dos anos 1960. O desenvolvimento de uma política de gestão do território criou as condições favoráveis à sua realização e os ecomuseus alimentaram-se de novas preocupações que apareceram na sociedade, ligadas ao êxodo rural, à baixa do nível de vida das zonas rurais quase desabitadas, ao aumento da população e da sua concentração nas grandes cidades.
         Estas orientações tiveram um amplo eco que demonstra a difusão do ecomuseu, desde França a outros países europeus. Países como a Suécia, Espanha e Portugal que sobressaem pela sensibilidade e interesse acerca da museologia e ecologia, contando com alguns dos ecomuseus mais representativos.
          Em Portugal, depois da revolução de Abril de 1974, multiplicaram-se as iniciativas culturais, dentro da perspectiva do pluralismo cultural. Começou-se a falar da possibilidade de criar um ecomuseu em 1979 quando surge a ideia do projeto do Parque Natural da Serra da Estrela. As intenções do Ecomuseu da Serra da Estrela era transformar-se num projeto nacional e não ter apenas influência no território e comunidade onde se inseria. Esta sua ambição ia para além do conceito e organização do sistema museológico português. Apesar do fracasso do Ecomuseu do Parque Natural da Serra da Estrela, a partir do início da década de 80 a vida museal portuguesa beneficiou de alterações inovadoras, que se traduziram em novas práticas museológicas, no alargamento do conceito de património museológico, na renovação e criação de novos museus.
        Estes novos museus não se propuseram, simplesmente à acumulação de coleções, mas sim à utilização dos testemunhos tangíveis e intangíveis do património cultural que contribuiu para a compreensão, explicação e experiência da realidade social, económica e histórica que modelaram as diversas comunidades.
           Estas pequenas intervenções de carácter museológico revelaram-se inovadoras, porque permitiram salvaguardar e valorizar recursos locais, naturais e culturais, promovendo o saber fazer tradicional, ao mesmo tempo que deram um novo uso local e didático a esses bens.
          Entre as várias iniciativas que se criaram na década de 80, destacam-se o Ecomuseu Municipal de Seixal, o Museu Etnológico de Monte Redondo, o Museu Municipal de Benavente, o de Alcochete, o Museu Rural e do Vinho de Cartaxo e a Vila Museu de Mértola. Em todos eles existe uma sede central, na qual existe uma exposição permanente e departamentos auxiliares do ecomuseu, responsáveis pela recolha, conservação e restauro, investigação, documentação, reservas e pela organização de exposições temporárias e outras atividades educativas. O núcleo central é um ponto de partida para os restantes núcleos que possam existir, assim como para itinerários ecomuseológicos, distribuídos pelo território de influência do ecomuseu. Estas unidades permitem, não só a descentralização das atividades e das instalações, mas também a participação da população na conservação e na nova utilização in situ das construções e objetos que constituem o património local. Neste sentido, as populações locais participam na atividade do museu, que pode ir desde a doação de objetos, testemunhos e informações acerca dos utensílios, a conservação e restauro de peças, participação em trabalhos de estudo e em atividades de animação.
       
       De que forma este museus singulares, característicos de uma época e de uma determinada conjuntura, poderão fomentar-se e adaptar-se, no futuro, na nossa sociedade?

     O surgimento do conceito de ecomuseu é característico de uma época em que a museologia sofria grandes mudanças e dava-se maior importância ao papel do museu na sociedade.
       O equilíbrio entre a conservação e a animação não é suficiente para definir o ecomuseu, a maioria dos museus tradicionais também o alcançaram desde há muito tempo. A sua originalidade reside na preocupação social em conjunto com as preocupações ecológicas, no seu princípio de territorialidade bem definida, e na fundamental participação ativa da comunidade onde se insere.
       O ecomuseu refutava a ideia definida do museu universal, imutável no tempo e no espaço, em oposição defendia formas específicas através das quais cada micro sociedade objetivava o seu património com uma concepção mais extensiva.
     Delineou-se uma visão diferente de museu, mas que, no entanto, não deixou de receber influências da visão da nova museologia e da ecomuseologia, que de certa forma ainda permanecem, contudo, é uma visão que sofreu algumas metamorfoses ao longo do tempo.